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O desafio de permanecer sóbrio
O desafio
de permanecer sóbrio Compreender como o álcool
altera a química do cérebro oferece aos
pesquisadores e aos próprios pacientes maiores
possibilidades de controlar a dependência por
Andreas Heinz
Ex-alcoólatras têm dificuldade de resistir à
ânsia de beber em duas situações particularmente
desafiadoras. Mas, felizmente, a compreensão do
que acontece em seus cérebros sob essas
circunstâncias está favorecendo o entendimento
dos neurobiólogos a respeito de como o uso
crônico do álcool modifica o cérebro. As
descobertas sugerem medidas que podem ajudar as
pessoas a permanecerem abstêmias.
O caso seguinte ilustra uma das situações de
maior tentação. O paciente H. não havia ingerido
uma gota de bebida havia muitas semanas graças a
um programa radical de abstinência de álcool,
mas uma simples caminhada na qual passasse em
frente ao bar e restaurante Pete’s Tavern, em
Nova York, em qualquer noite apagava quase por
completo sua vontade de permanecer sóbrio.
Durante o dia ele não sentia o desejo pelo
álcool, mas quando passava pelo estabelecimento
à noite – via a luz aconchegante através das
janelas e ouvia o tinir dos copos –H. sentia uma
forte tentação de entrar lá e pedir uma cerveja.
Pesquisadores de dependências chamam esse
fenômeno de “desejo condicionado”. Se uma pessoa
sempre consumiu álcool numa mesma situação, um
encontro com o estímulo familiar irá tornar a
sensação de necessidade da substância quase
irresistível. Então, mesmo depois de anos de
abstinência, consumir um único drinque pode
desencadear um desejo poderoso de beber mais e
mais.
A história
de outro paciente, K. ilustra outra tentação
comum. O rapaz havia abandonado o álcool e
estava indo bem, mesmo depois de ter sido
demitido do trabalho e de haver começado a
receber o seguro-desemprego. Mas numa visita ao
local onde tratava dos assuntos relacionados ao
desemprego, no centro da cidade, um burocrata se
recusou a aprovar seu benefício. Enquanto estava
parado na plataforma do metrô esperando o trem
para casa, ele de repente começou a transpirar,
estremecer e sentir-se da abstinência ele tomava
algumas doses sempre que se deparava com uma
situação tensa. Depois da discussão, seu cérebro
– moldado pela experiência – esperava o efeito
calmante do álcool. Quando a droga não veio, ele
começou a sofrer aquilo que os especialistas
chamam de “crise de abstinência condicionada”.
O desejo condicionado e a crise de abstinência
condicionada são produzidos no cérebro por
mecanismos diferentes. Nos últimos anos, os
neurocientistas investigaram a fundo ambos os
fenômenos. Eles agora se sentem à vontade para
explicar como o consumo rotineiro de álcool
transforma os circuitos do cérebro de forma a
levar ao vício, e começam a desenvolver novos
medicamentos que podem proporcionar uma redução
drástica das chances de se voltar à dependência.
Por séculos, a sociedade rotulou alcoólicos como
pessoas auto-indulgentes que não possuem força
de vontade. Embora a decisão de começar a beber
realmente seja assunto de cada indivíduo, traços
inerentes às células do cérebro podem
influenciar bastante esse caminho perigoso. Além
disso, uma vez que alguém se torna dependente,
só força de vontade costuma ser insuficiente
para romper essa condição; drogas capazes de
reverter a química do cérebro alterada pelo
álcool podem ser necessárias.
A
sensibilidade de um indivíduo aos efeitos do
álcool sobre os neurônios influencia de maneira
significativa a chance de que ele se torne
dependente. De acordo com o professor de
psiquiatria Marc A. Schuckit, da Universidade da
Califórnia, San Diego, e diretor do Programa de
Tratamento de Álcool e Drogas do Sistema de
Saúde de San Diego do Departamento de Veteranos
de Guerra, uma das melhores proteções contra o
alcoolismo é a náusea. Pessoas que ficam
enjoadas com facilidade quando bebem têm menos
probabilidade de ingerir bebida em quantidade
suficiente e de maneira constante a ponto de
criar dependência. As mais resistentes são as
que mais correm risco. Substâncias mensageiras
inibitórias e excitantes no cérebro ficam
desequilibradas em resposta a doses excessivas
de álcool. As pessoas que conseguem beber mais
enviam mais álcool para o cérebro, dessa forma
aumentando com o tempo a chance de que um
desequilíbrio permanente se desenvolva.
Essa química do cérebro foi parcialmente
estudada em macacos Rhesus que tiveram de
crescer sem suas mães, alguns no laboratório e
outros na natureza. O psicólogo americano James
Dee Higley, pesquisador do Instituto Nacional de
Abuso de Álcool e Alcoolismo, descobriu que
esses macacos reagiam menos a bebidas de alto
teor alcoólico do que outros macacos. Os macacos
sem mãe também eram semelhantemente insensíveis
a outras substâncias que, como o álcool,
aumentavam o impacto do neurotransmissor GABA
(ácido gama-aminobutírico), o qual inibe sinais
entre neurônios para que as células não fiquem
excitadas demais.
Como resultado dessa sensibilidade reduzida, os
macacos Rhesus criados em isolamento podiam
beber uma quantidade notavelmente enorme de
álcool – e procuravam fazer isso quando os
pesquisadores proporcionavam acesso livre à
droga. Estudos em humanos revelaram mudanças
semelhantes nos cérebros das pessoas.
A química alterada do cérebro resultante da
experiência é apenas um fator que contribui para
diferenças individuais em termos de
suscetibilidade. Os genes representam também um
papel. Schuckit defende que até metade dos
fatores causais para sensibilidade reduzida ao
álcool são herdados. Num estudo de pequena
escala que rastreou pessoas durante 15 anos, o
grupo de pesquisa de Schuckit descobriu que uma
variação no gene que codifica uma parte do
receptor GABA pode estar relacionada a uma baixa
sensibilidade ao álcool.
Embora a alta tolerância decorrente de uma
química ajustada do cérebro ou da genética possa
parecer um traço protetor, em última instância é
desfavorável. Se tal indivíduo consumir grandes
quantidades de álcool de maneira regular, seu
cérebro aos poucos irá se acostumar,
praticamente garantindo que a pessoa se torne
adicta.
Por,
Andreas Heinz é diretor da Clínica para
Psiquiatria e Psicoterapia da Universidade
Charité em Berlim.
Fonte:
Revista Mente e Cérebro
Postado por Izabel Cristina
Fonseca, em 4 março 2010 (11345)
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