|

Mistérios do orgasmo
feminino
Mulheres podem
atingir o prazer intenso por meio de grande
variedade de estímulos, mas algumas têm
dificuldade de experimentar a excitação e o tão
almejado clímax
Cientistas de várias especialidades se ocuparam
deste assunto desde sempre, a começar, é claro,
pelo velho e genial Sigmund Freud, que sobre
mulheres e gozo, especificamente, chegou a esta
conclusão: o orgasmo clitoridiano seria
precário, uma fixação na sexualidade infantil,
enquanto o orgasmo vaginal estaria associado à
genitalidade e maturidade psíquica da mulher. É
verdade que deixou em aberto sua angústia sobre
o sexo feminino, seus gozos e frustrações ou
mistérios, tanto que fez a famosa pergunta:
Afinal, o que querem as mulheres? As feministas
não se cansam de lembrar dessa passagem de
Freud. Algumas a levam tão a sério que escrevem
livros tentando responder a essa questão, como a
americana Erica Jong, que publicou O que querem
as mulheres, na década de 90, quando estava
beirando os 50 anos. A autora fez história com o
célebre Medo de voar (Editora Record), sobre a
liberação feminina nos anos 60.
Enquanto Freud se concentrava nos estudos do
orgasmo, pesando os méritos do gozo clitoridiano
versus o vaginal, quantas desconhecidas não
estariam chegando ao clímax, com mais ou menos
fantasias? Simplesmente porque a fisiologia
feminina e o cérebro, o centro do orgasmo de
ambos os gêneros, funciona de forma muito
particular.
A mulher e seu corpo, há muito contraditam
versões estereotipadas sobre a sexualidade e
desmentem as regras ditadas por teóricos e
experimentalistas sobre o assunto. Mas,
finalmente, nas duas últimas décadas,
pesquisadores têm confirmado que a estimulação
sexual feminina pode ter caminhos diferentes. E,
com ou sem parceiro, pode incrementar sua vida
sexual permitindo que as sensações de seu corpo
a guiem em direção a esses caminhos que trazem o
prazer e, finalmente, o orgasmo.
No estudo que foi um divisor de águas na década
de 60, os pesquisadores da sexualidade, Masters
e Johnson, estabeleceram algumas características
da reação fisiológica feminina à atividade
sexual. Eles descobriram que, durante a
excitação, a respiração, a pressão sangüínea e a
freqüência cardíaca aumentam. O sangue flui para
a vulva e o útero sobe à medida que a parte
superior do balão vazio, que é a vagina, se
abre. No orgasmo, toda a região pélvica se
contrai, involuntariamente. Segundo os
estudiosos, o clitóris, um pequeno órgão erétil
próximo à parte frontal da vulva, desempenha
papel central na excitação.
Na
virada da década de 80 para a de 90, os
cientistas identificaram outras rotas para o
orgasmo, como o ponto G, uma região de
sensibilidade extrema, localizada na parede
frontal da vagina, a poucos centímetros da
entrada. Estimular essa região poderia gerar
grande excitação e até mesmo o orgasmo. Algumas
mulheres ainda liberam fluido da uretra, quando
estimuladas na área vaginal. Muitas sentem
intenso prazer com isso, observa a sexóloga
Beverly Whipple, da Universidade Rutgers.
“Existem mulheres que
sentiam haver algo errado com elas e se
submeteram à cirurgia para impedir a expulsão do
líquido. Mas essas são variações normais. O
problema é que, historicamente, fomos levadas a
acreditar que existia apenas uma maneira de
reagir sexualmente”, afirma.
Existem outras vias no corpo feminino que levam
ao orgasmo. A estimulação próxima da região
vaginal oferece prazer intenso a muitas delas, e
até orgasmo. Outras podem chegar ao clímax com o
estímulo de partes do corpo distantes dos
genitais. O bico dos seios é um desses
pontos-chave, sem dúvida, a região do pescoço e
a nuca também podem ser pontos de sensibilidade
diferenciado, dependendo da mulher.
“Existem bibliotecas cheias de material sobre o
clitóris, a vagina e o ponto G, mas outras
partes do nosso corpo também estão repletas de
potencial erótico”, lembra a terapeuta
sexual, Gina Ogden, de Cambridge, Massachusetts.
“Eu não quero propor, com isso, que as mulheres
que não sentem orgasmo saiam em uma excursão
pelo corpo, tentando achá-lo, mas é importante
saber quais são as possibilidades.”
Ogden, Whipple e o neurocientista comportamental
Barry R. Komisaruk, da Rutgers, mediram mudanças
fisiológicas, tais como pressão sangüínea,
freqüência cardíaca e diâmetro da pupila em sete
mulheres que podiam ter orgasmos com
auto-estimulação genital ou apenas com alguma
fantasia. Mais da metade das examinadas
conseguiam alcançar por toque extragenital, mas
elas são, provavelmente, raras. Ogden descobriu
que algumas podiam atingi-lo sem se tocar. Os
pesquisadores concluíram que ao se excitar,
mesmo que com ajuda apenas do pensamento, é
possível experimentar no corpo uma sensação de
intenso prazer, similar à que se sentiria
tocando os genitais. Estudos com a finalidade de
aperfeiçoar a qualidade de vida de mulheres com
traumatismo na medula espinhal sugeriram que a
diversidade de orgasmos está associada também à
neurobiologia básica. Mulheres com essas lesões,
que em princípio apresentariam comprometimento
na transmissão das mensagens dos genitais à
medula, podem experimentar orgasmos com
estimulação das regiões cervical, vaginal ou
clitoridiana. Esses achados apontam a existência
de caminhos neurológicos adicionais que levam ao
orgasmo.
Sem orgasmo
Embora se observe essa variedade de caminhos e
métodos pelos quais as mulheres podem atingir o
orgasmo, muitas de fato nunca experimentaram um,
enquanto outras não chegam ao clímax durante a
relação sexual com o parceiro, mas podem chegar
por meio da masturbação. Estudos e pesquisas
sobre o funcionamento e comportamento sexual
feminino, desde Masters e J¬ohnson nos anos 60,
e o Relatório Hite, dos anos 70 em diante,
acumularam informação, e mesmo que seus
resultados tenham sido coletados de forma
imprecisa, por meio de auto-relatórios,
depoimentos e estatísticas não randômicas,
estabeleceram algum conhecimento. Eles estimam
que 5% a 15% das mulheres sexualmente ativas
nunca tiveram orgasmo. Nada estaria
fundamentalmente errado com elas, do ponto de
vista fisiológico. O tamanho do clitóris, sua
distância da abertura vaginal, e outras
variações anatômicas não têm correlação com a
capacidade de ter orgasmos, diz o psicólogo
social Clive M. Davis, da Universidade de
Syracuse, EUA.
Muitos fatores podem comprometer a habilidade de
uma mulher em alcançar o orgasmo, incluindo
algumas doenças e intervenções médicas. Até dez
anos atrás, por exemplo, cirurgiões faziam
histerectomia, removendo o colo do útero, assim
como o restante do órgão, a fim de prevenir o
câncer cervical. Mas em muitas mulheres, essa
região é extremamente sensível e importante para
o prazer sexual. É recente a realização de
histerectomias supracervicais, que mantêm o colo
do útero intacto, observa Sadja Greenwood,
professora da Universidade da Califórnia, em São
Francisco. Algumas drogas psicoativas e
anti-hipertensivas também comprometem o orgasmo,
assim como disfunções hormonais. Se uma mulher é
saudável, está livre de distúrbios conhecidos
por obstruir o orgasmo. As razões pelas quais
não consegue atingir o clímax, provavelmente têm
origens emocionais ou psicossociais, observa a
assistente clínica Linda P. Alperstein, de São
Francisco.
Entrega e
disfunções
Muitas mulheres sofrem de depressão, mas não se
dão conta, a não ser quando o parceiro se queixa
de sua falta de desejo. O transtorno disfórico
pré-menstrual, a gravidez, o puerpério e a
transição para a menopausa, são condições que
comprometem substancialmente o desejo feminino,
lembra a psiquiatra Carmita Abdo, responsável
pelo Projeto Sexualidade (Prosex), do Instituto
de Psiquiatria da Universidade de São Paulo
(USP). Ela acrescenta, porém, que 60% das
disfunções sexuais femininas são de origem
secundária, ou seja, são adquiridas no
relacionamento, dependendo do parceiro. Baseada
em pesquisas recentes sobre o comportamento
sexual dos brasileiros, a psiquiatra observa que
25,8% dos homens têm queixa de ejaculação
precoce e 45% apresentam algum grau de disfunção
erétil.
Estudiosos da sexualidade conjeturam sobre as
diferenças de expressão do desejo e excitação
entre os sexos e quanto as mulheres podem
influir no desenvolvimento satisfatório da
relação sexual. “O homem
tem duas fontes de desejo, que são a fantasia e
o olhar, enquanto elas dependem do tato, da
atenção, da palavra, do ouvir, para manter o
interesse ao longo do ato sexual”, diz a
médica, citando pesquisas da especialista
canadense em sexualidade,
Rose Marie Basson,
que reinterpretou o ciclo de resposta sexual
estabelecido pelo casal pioneiro dos estudos da
sexualidade humana, Master e Johnson.
Mesmo que se sinta confortável com o
parceiro, e independentemente da estimulação que
funcione para ela, distrações da mente podem
interferir no processo orgásmico.
“As mulheres podem ficar
ansiosas ou preocupadas com a duração da relação
ou com seu corpo. Muitos ingredientes entram na
mistura que permite a elas experimentar o prazer
que leva ao orgasmo”, observou Lonnie
Barbach, sexóloga americana. Não são raras as
vezes em que ficam excitadas, mas têm problemas
para relaxar. “O problea é
que há mulheres que querem parecer a Monalisa, e
não uma gárgula, quando está tendo um orgasmo,
mas essa preocupação em se manter no controle
pode atrapalhar”, observa Alperstein.
“Na maior parte do tempo,
tentamos lutar contra a entrega.”
Raiva, fadiga, stress e depressão interferem
particularmente no orgasmo. Traumas anteriores,
tais como estupro ou abuso sexual, também impõem
barreiras. “Um bom
funcionamento sexual não é atestado de boa saúde
mental, e funcionamento sexual problemático não
é atestado de problemas emocionais”, diz
Alperstein. “Você pode ter
problemas para obter orgasmo, que não são
psicológicos ou emocionais”. Algumas
mulheres precisam de terapia para lidar com as
questões fundamentais que as impedem de
experimentar o clímax, enquanto outras podem
beneficiar-se de informação
educacional e da
prática, sustenta Barbach.
Para a maioria, a chave está em reconhecer que
seu corpo é o melhor professor.
“A melhor maneira para ter
um orgasmo é aprendendo sobre seu corpo por meio
da masturbação masturbação”, diz a
sexóloga Betty Dodson, de Nova York.
“Uma vez
encontrado o que funciona para ela, pode compartilhar
essa informação com seu parceiro.” Essa
abordagem ostenta altos índices de satisfação.
“A idéia é focar no prazer, não em conseguir o
orgasmo”, conclui Barbach.
Estado de frenesi
Durante experiência em laboratório, o
neurocientista Jim Pfaus, da Universidade
Concórdia de Montreal, no Canadá, administrou
experimentalmente, o afrodisíaco sintético
bremelanotide ou PT-141 em ratas. Normalmente
contidas, sob o efeito desse composto, elas
corriam até os pasmos machinhos e os provocavam
com caretas esquisitas e toques de vibrissas nos
focinhos deles. Se o macho não respondia às
investidas, a performance da rata aumentava em
ritmo e em intensidade. Se ainda assim ele
persistia plantado no lugar, a rata sapecava-lhe
um tapa no focinho. A estratégia dava certo. O
macho disparava atrás dela e a satisfazia pela
cópula.
Fonte:
Carmita Abdo. Summus Editorial, São Paulo, 2004.
Postado por Izabel Cristina da Fonseca,
15
de março de 2010.
(11.683)

|