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Mulher brasileira ainda não busca o próprio prazer, diz
consultora do mercado erótico
Ao contrário do que se pensa, sex shop não é mina de ouro e as
mulheres não estão comprando produtos em busca de seu próprio
prazer. Pelo menos é o que acredita Paula Aguiar, consultora da
Atenas, empresa especializada em consultoria para o mercado
erótico, e autora dos livros SexShop-Guia de Negócios e
SexShop.com. Ela está promovendo uma série de palestras na
Erotika Fair, em São Paulo, para discussão desse mercado no Brasil
e formas de profissionalizá-lo, mesmo porque, segundo ela, muita
gente está querendo entrar no negócio sem conhecimento e a demanda
não é tão alta assim.
Em terras tupiniquins, o maior público consumidor de
mercadorias eróticas é o feminino. As mulheres representam 70% dos
frequentadores de sex-shop de rua, e 51% dos compradores online,
mas com um detalhe. Ao contrário das estrangeiras, elas
privilegiam produtos e acessórios para uso do casal ou para dar
mais prazer ao homem. Para o Terra, ela falou sobre a as novas
tendências desse nicho e das características da consumidora
brasileira.
Terra - Como está hoje o mercado das sex shops?
Paula Aguiar - Do mesmo jeito que a internet, nos últimos
cinco anos o mercado erótico está vivendo uma bolha. Muitos
empreendedores descobriram esse nicho, mudou o perfil dessas
pessoas e isso está transformando o mercado. Hoje estamos na
terceira geração de lojas de produtos eróticos, sendo que os
pioneiros, há mais de 30 anos, foram aqueles que viajavam e
traziam os produtos de fora e vendiam para os amigos. O que falta
hoje aqui no Brasil é uma grande rede de sex shops, como a inglesa
Ann Summers.
Terra - O que está vindo com a nova geração?
Paula Aguiar - A tendência agora são espaços que vendem
produtos, convites de festas de "tribos", comida afrodisíaca,
cursos, enfim, que tudo que seja relacionado a uma experiência. E
isso está muito ligado à internet, porque ela agrega comunidades.
De uma certa maneira estamos saindo da loja para espaços mais
lúdicos. Uma grande prova disso é um evento que está sendo
projetado para este ano chamado Jardim de Atenas, onde as pessoas
terão contato com vários tipos de culturas eróticas.
Terra - Você acredita que, com isso, a loja de rua tende a
sumir?
Paula Aguiar - Não, as lojas e as butiques eróticas
continuam atendendo, mas pode existir uma outra maneira de vender,
onde experiências e conceitos vêm antes do produto. Veja as
embalagens atuais. Mudaram totalmente, e com ela, a maneira que
eles são apresentados ao consumidor e como este encara o produto.
Terra - É assim porque as sex shops continuam sendo feias,
escuras e com aquele ar de que a gente está fazendo algo errado
quando entra em uma?
Paula Aguiar - Isso veio das primeiras lojas que apareceram
e acabaram formando um público cativo. Pense bem, se você é
empresário e vê que a maneira que faz sucesso é essa, então você
continua com ela. Só que mesmo o empreendedor está observando
tendências e mudando aos poucos seu negócio. Há alguns anos você
não tinha vendedora mulher em sex shop e hoje tem. O mesmo
acontecia com produtos exclusivamente femininos.
Terra - Hoje o grande público de sex shop é a mulher e a
maior parte dos produtos ofertados são femininos. Como é essa
consumidora?
Paula Aguiar - É preciso ressaltar que nós estamos tentando
fazer um trabalho de consultoria no mercado erótico que começa
fazendo com que o lojista reconheça o perfil da mulher consumidora
brasileira, que é totalmente diferente da americana e europeia.
Por exemplo, a mulher estrangeira quando vai numa sex shop está
pensando no prazer dela. A brasileira não tem essa mentalidade
porque a primeira coisa que passa na sua cabeça é "como eu posso
usar isso com meu parceiro?" ou "como eu posso agradar meu homem e
fazer ele gostar mais de mim?".
Terra - Mas a mulher brasileira não está "descobrindo" o
vibrador?
Paula Aguiar - Não é o produto mais vendido por aqui. Em
primeiro lugar vem os cosméticos como gel para sexo oral. Aliás, o
gel mais vendido é o de morango porque é o sabor preferido entre
as mulheres. Então vamos avaliar que o produto mais vendido no
Brasil é aquele para a mulher fazer sexo oral no homem. O prazer é
dele. A Atenas mapeou e classificou uma amostra de 100 mil vendas
de produtos eróticos em 2009 com 3,7 mil produtos diferentes.
No topo, com 33% do total de vendas vêm os produtos cosméticos
sendo que 53% destes são os considerados beijáveis, lambíveis ou
com aroma adocicado, ou seja, para sexo oral do casal. A seguir
vieram os de conotação fetichista especialmente as fantasias. Mais
uma vez coisas que aquecem a vida a dois. Abaixo destes, temos os
vibradores comuns e próteses com 16% das vendas. A seguir os
modernos como o bullet com 12%, depois os produtos masculinos (masturbadores
e extensores), com 11% e, finalmente, com 7%, vêm os produtos
exclusivamente para o prazer feminino como estimuladores de
clitóris.
Terra - E a que você atribui esse comportamento feminino na
hora da compra?
Paula Aguiar - Acho que é uma necessidade cultural. Os
antropólogos podem explicar melhor do que eu, mas chegamos a
pensar que há uma carência afetiva e uma necessidade do outro
muito grande na mulher brasileira. E tem até questões religiosas,
vindas da colonização e que estão ligadas à não-aceitação da
masturbação feminina. Tanto que o público que mais se aproxima em
hábito de compra com as brasileiras são as portuguesas.
Terra - Existe diferença de hábito de compra quando
analisamos a idade da consumidora? Porque a impressão que se tem é
que as mais jovens é que compram vibradores.
Paula Aguiar - Mesmo aquelas entre 20 e 30 anos não possuem
o perfil de comprar para seu próprio prazer. Elas também querem
agradar o amante. E existe uma grande diferença entre público A/B
com o C/D. As classes mais baixas ainda estão muito arraigadas com
questões culturais e religiosas que as altas. Eles estão só no
gelzinho e na bolinha.
Terra - Esse cenário todo é só um problema de mentalidade do
consumidor ou também existe uma influência da maneira que os
produtos são vendidos?
Paula Aguiar - Existe uma necessidade de formação de
vendedores de sex shops. Eles não sabem, por exemplo, vender
direito um vibrador, nem mesmo como funciona um, por isso lançamos
a coleção de livrinhos com "manuais de instrução" de cada tipo. E
acho que o preconceito do consumidor também é decorrente de uma má
formação de mercado. Por mais que este mercado tenha 30 anos, não
existe uma profissionalização. Um vibrador é vendido porque o
consumidor ficou curioso e quando ele compra tem de intuitivamente
descobrir o que fazer com o brinquedo.
Terra - E é aí que entram seus livros?
Paula Aguiar - Tudo veio de bate-papos que tínhamos depois
de cada Erotika Fair, que começavam com "o que podemos melhorar"?
Estou há mais de dez anos nesse mercado, conheci todos os
pioneiros e minha curiosidade sempre foi ligada a como eles tinham
conseguido montar seus negócios. Obviamente que com minha formação
publicitária eu também os ajudava nas estratégias. Com tudo isso,
lancei o primeiro livro, que também conta a história do mercado
erótico brasileiro. O segundo veio da minha experiência com
internet. E sou clara nos livros para explicar que a coisa não é
tão fácil. Eu mesma já estou até cansada de ver planos de negócios
equivocados nesse mercado, que leva, obviamente, à falência de
muita empresa.
Fontes:
Provedor Terra, por Claudio R. S. Pucci
Postado por Izabel Cristina da Fonseca,
21
de abril de 2010.
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