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Identidade feminina,
Lúcia Rosenberg escreve sobre a mulher atual
Prazer no corpo e na alma
A preocupação com
a imagem está tomando proporções insanas e
distanciando as mulheres de si mesmas
Corpo
e alma. Entre os dois, toda uma vida de
prazeres, mistérios e importâncias diferentes.
Sabemos que o tempo passa e que o corpo muda. Em
cada fase há um novo equilíbrio, que gera a
saúde e a beleza do corpo e do organismo. Mas as
meninas nunca sabem o que fazer com suas formas
quando elas são inauguradas e as mulheres também
não conseguem acolher os novos contornos
trazidos pela maturidade.
Mas, afinal, o que é que buscamos encontrar no
espelho? Quem é que buscamos encontrar ali
refletida? Por que o que vemos nos faz marcar
uma consulta no cirurgião plástico? Que corpo é
esse que serve aos olhos apenas como vitrines?
Pior, fazem-se manequins siliconados segundo
padrões aleatórios e impostos. Novas formas
estas que nem sequer servem ao prazer, pois,
segundo pesquisas recentes, ainda é muito baixo
o número de mulheres que chegam ao orgasmo na
transa com o parceiro.
E o que foi feito da alma? O que está
acontecendo com a tal revolução sexual? Onde foi
parar a liberdade feminina? Parece que mudaram a
cara do dono, apenas. Hoje, as mulheres se
submetem ao espelho, aceitam ser devotas do
Photoshop que cria deusas perfeitas e obedientes
à mídia, que dita os pesos e as medidas. E lá
vai uma horda de mulheres inteligentes,
esclarecidas e modernas atrás das formas
“ideais”.
O espelho é o novo imperador, o algoz de todo
dia. A preocupação com a imagem está tomando
proporções insanas e o resultado disso não
poderia ser outro que o distanciamento da
própria essência. Os olhos perseguem os
“defeitos” que nada mais são do que aquilo que é
diferente da imagem ideal e buscam, mais que
corrigi-los, eliminá-los. As voluptuosas acabam
retalhadas e aspiradas, as magras aumentam as
medidas, as morenas fazem luzes, os cachinhos
ficam chapados.
E os consultórios enchem-se de mulheres perdidas
de si, sem nenhuma autoestima, crentes de que,
no fundo, não servem. Nesta lógica, a adequação
é que salva, não a espontaneidade. Coisa antiga,
semelhante ao mito do leito de Procrusto, da
mitologia grega, uma medida padrão à qual os
prisioneiros deveriam se submeter e adequar – os
mais altos teriam seus membros amputados,
enquanto os menores seriam devidamente
esticados. Pode? Um exército uniforme de
mulheres loiras, cabelos longos e lisos, seios
fartos, bunda grande, coxas duras e magras.
Estamos num lugar muito pior daquele em que as
mulheres eram fúteis e superficiais, que só se
ocupavam da massagem, ginástica, cabeleireiros e
lojas. Foi contra este estereótipo que lutamos
para entrar nas universidades e no mercado de
trabalho há não tanto tempo assim. Hoje,
literalmente, as mulheres - e as meninas, morrem
por vaidade. Numa parada cardiorespiratória
decorrente de complicações em cirurgias
estéticas ou esvaindo-se na anorexia ou bulimia.
Meninas, eu convido a um movimento pendular mais
equilibrado – nem guerrilheiras do trabalho, nem
bonecas emborrachadas. E com muito, muito prazer
no corpo e na alma.
Lucia Rosenberg -
luciarosenberg@ig.com.br - é psicóloga pela
PUC-SP, mestre em Psicologia pela New School for
Social Research em Nova York e autora do livro
"Cordão Mágico - histórias de mãe e filhos".
Fonte:
Provedor IG
Postado por Izabel Cristina da Fonseca,
21
de março de 2010.
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