O jovem terá de mudar
de atitude para trabalhar e as empresas
terão de mudar seu ambiente para atrair
talentos
NO ANO passado, 730 mil universitários e
recém-formados se candidataram a 2.334
vagas de estágios e trainees de algumas
das mais cobiçadas empresas, entre as
quais Microsoft, Sadia, Nestlé,
Itaú-Unibanco, Braskem, Unilever. Apesar
da abundante oferta de mão de obra
-cerca de 3.100 candidatos por vaga-
vinda das melhores faculdades do país,
10% dos postos não foram preenchidos.
Responsável pela seleção, a psicóloga
Sofia Esteves, presidente da Cia. de
Talentos, já sabe há muito tempo que a
maioria dos jovens não passa na peneira
por causa da baixa formação (não ter
fluência em inglês, por exemplo) e até
dificuldade de expressar com clareza uma
ideia. Isso é, porém, parte do problema.
Uma pesquisa que ela conduziu, concluída
no mês passado, com 31 mil
universitários, mostra que o assunto é
mais complexo e revela um conflito
geracional -as empresas não estão
entendendo os jovens, formados na
chamada era da informação. E os jovens
não entendem o que as empresas pedem.
"Há um modo diferente de encarar o
mundo", afirma a psicóloga.
A pesquisa mostrou que quase a totalidade
dos universitários que disputaram as vagas
de trainee e de estágio estão habituados a
navegar em mais de uma rede social pela
internet, como Orkut e Facebook. É uma
geração que aprendeu a não reverenciar
hierarquias, criada num ambiente
interativo e colaborativo, com uma enorme
variedade de opções. O que existe de
habilidade para tarefas simultâneas e
velozes, falta em foco e aprofundamento.
É uma atitude reforçada pelo clima
familiar, com a mudança da relação de
autoridade de pais e filhos. Imagina-se
que a empresa possa refletir esse tipo de
ambiente com baixa hierarquia e até, quem
sabe, falta de limites. A pesquisa indicou
que entre as cincos razões para se deixar
uma empresa, o salário está em quarto
lugar. "A maior motivação não é o
dinheiro", afirma Sofia.
Em primeiro lugar, aparece a "falta de
desenvolvimento profissional" como a
maior razão para não ficar no emprego.
Em segundo, praticamente empatado, "não
ter ambiente de trabalho agradável" e,
em terceiro, "não ter qualidade de
vida". Detalhando-se as respostas, vemos
que muitos imaginam a empresa como um
espaço de lazer que proporciona
bem-estar. Seria quase um clube, movido
a criatividade.
Na seleção, essa visão dos candidatos
transparece. Para o jovem, o que
significa prazer é, na visão do
empregador, incapacidade de lidar com a
disciplina. Quando um fala em ambiente
criativo, outro suspeita de falta de
disposição em obedecer à hierarquia.
Em suma, essa geração quer ficar num
lugar prazeroso, criativo, onde possa se
sentir evoluindo. Daí se explica a
crescente tendência entre os jovens de
preferir abrir suas próprias empresas,
onde talvez até ganhem menos e vivam com
mais insegurança, mas consigam
determinar seu horário de trabalho.
Tantos candidatos não preenchem tão
poucas vagas porque há também uma
carência de comprometimento. Uma parte
deles é cortada simplesmente porque não
vai às entrevistas. Isso depois de
passarem nas duras provas, que exigem,
entre outros requisitos, além de
fluência em língua estrangeira, testes
de raciocínio lógico. Lembremos que,
nesse caso, eles estão disputando postos
em algumas das mais reverenciadas marcas
do mundo empresarial.
Sofia diz que, certa vez, marcou 18
entrevistas para um sábado. Apenas dois
se apresentaram. "Liguei para eles.
Muitos não foram porque não conseguiram
acordar cedo no final de semana ou
tinham marcado, naquela hora, outros
compromissos."
O problema prossegue depois que eles
passam nessa apertadíssima seleção.
Cerca de 15% dos aprovados não
suportaram a pressão e desistiram logo
no primeiro ano de trabalho -o que, para
empresa, é dinheiro jogado fora. O que
se vê aqui é o problema da falta de
resiliência, a dificuldade de suportar
as adversidades. Ou, mais simples, a
dificuldade de ouvir não. "Alguns saem
porque seu projeto não é aprovado e
ficaram aborrecidos", conta Sofia.
PS - A pesquisa revela que o jovem entra
na empresa já vendo a porta de saída;
14% acham que deveriam ficar no máximo
quatro anos; outros 51% até, no máximo,
dez anos. O resumo, na visão de Sofia, é
que o jovem terá de mudar de atitude
para trabalhar e as empresas terão de
mudar seu ambiente de trabalho para
atrair talentos. Nem um lugar fechado
que iniba a criatividade - nem tão
aberto que parece a casa dos pais, onde
não existe frustração. Nessa combinação,
talvez esteja o futuro do emprego.
Gentilmente enviado por primo Walter
Fonseca
Postado por Izabel Cristina da Fonseca, 28
de setembro de 2009.
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