ENTREVISTA MARY DEL PRIORE
"O
ESPELHO É A NOVA SUBMISSÃO FEMININA"
Na
semana do Dia Internacional da Mulher, a
historiadora afirma que as brasileiras são
apáticas, machistas e escravas da ditadura
da beleza, por Claudia Jordão.
Em 8 de março de 1857,
operárias de uma fábrica de Nova York
declararam guerra aos patrões. Elas exigiam
trabalhar dez horas por dia, em vez de 16, e
ganhar mais do que apenas um terço do
salário dos colegas do sexo masculino. Como
resposta, foram trancadas no imóvel,
incendiado em seguida. Resultado: 130 delas
morreram. Em 1975, a Organização das Nações
Unidas (ONU) fez da data o Dia Internacional
da Mulher. Trata-se de uma homenagem a essas
que foram as primeiras mártires da luta
feminista, movimento que ganhou força nos
anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos e na
Europa e que mudaria a vida das brasileiras
a partir da década de 1980. Desde então, uma
grande parcela da população feminina
absorvida pelo mercado de trabalho,
conquistou liberdade sexual e hoje, cada vez
mais, se destaca na iniciativa privada, na
política e nas artes - mesmo que a total
igualdade de direitos entre os sexos ainda
seja um sonho distante. Mas, para a
historiadora Mary Del Priore, uma das
maiores especialistas em questões femininas,
apesar de todas as inegáveis conquistas, as
mulheres não se saíram vitoriosas. Autora de
25 livros, inclusive "História das Mulheres
no Brasil". Mary, 57 anos, diz que a
revolução feminista do século XX também
trouxe armadilhas.
ISTOÉ - Neste 8 de
março, há motivos para festejar?
Mary Del Priore -
Não tenho nenhuma vontade. O diagnóstico das
revoluções femininas do século XX é ambíguo.
Ele aponta para conquistas, mas também para
armadilhas. No campo da aparência, da
sexualidade, do trabalho e da família houve
benefícios, mas também frustrações. A
tirania da perfeição física empurrou a
mulher não para a busca de uma identidade,
mas de uma identificação. Ela precisa se
identificar com o que vê na mídia. A
revolução sexual eclipsou-se diante dos
riscos da Aids. A profissionalização, se
trouxe independência, também acarretou
stress, fadiga e exaustão. A desestruturação
familiar onerou os dependentes mais
indefesos, os filhos.
"A
executiva não deu certo. Ela hipoteca sua
vida familiar ou sacrifica seu prazer.
Depressão e isolamento se combinam num
coquetel regado a botox"
ISTOÉ - Por que é tão
difícil sobreviver a essas conquistas?
Mary - Ocupando
cada vez mais postos de trabalho, a mulher
se vê na obrigação de buscar o equilíbrio
entre o público e o privado. A tarefa não é
fácil. O modelo que lhe foi oferecido era o
masculino. Mas a executiva de saias não deu
certo. São inúmeros os sacrifícios e as
dificuldades da mulher quando ela concilia
seus papéis familiares e profissionais. Ela
é obrigada a utilizar estratégias
complicadas para dar conta do que os
sociólogos chamam de
"dobradinha infernal". A carga
mental, o trabalho doméstico e a educação
dos filhos são mais pesados para ela do que
para ele. Ao investir na carreira, ela
hipoteca sua vida familiar ou sacrifica seu
tempo livre para o prazer. Depressão e
isolamento se combinam num coquetel regado a
botox.
ISTOÉ - A mulher
também gasta muita energia em cuidados com a
aparência. Por que tanta neurose?
Mary - No decorrer deste
século, a brasileira se despiu. O nu, na
tevê, nas revistas e nas praias incentivou o
corpo a se desvelar em público. A solução
foi cobri-lo de creme, colágeno e silicone.
O corpo se tornou fonte inesgotável de
ansiedade e frustração. Diferentemente de
nossas avós, não nos preocupamos mais em
salvar nossas almas, mas em salvar nossos
corpos da rejeição social. Nosso tormento
não é o fogo do inferno, mas a balança e o
espelho. É uma nova forma de submissão
feminina. Não em relação aos pais, irmãos,
maridos ou chefes, mas à mídia. Não vemos
mulheres liberadas se submeterem a regimes
drásticos para caber no tamanho 38? Não as
vemos se desfigurar com as sucessivas
cirurgias plásticas, se negando a envelhecer
com serenidade? Se as mulheres orientais
ficam trancadas em haréns, as ocidentais têm
outra prisão: a imagem.
ISTOÉ - Na Inglaterra,
mulheres se engajam em movimentos que
condenam a ditadura do rosa em roupas e
brinquedos de meninas. Por que isso não
ocorre aqui?
Mary - Sem dúvida,
elas estão à frente de nós. Esse tipo de
preocupação está enraizado na cultura
inglesa. Mas aproveito o mote para falar mal
da Barbie. Trata-se de impor um estilo de
vida cor-de-rosa a uma geração de meninas.
Seus saltos altos martelam a necessidade de
opulência, de despesas desnecessárias,
sugerindo a exclusão feminina do trabalho
produtivo e a dependência financeira do
homem. Falo mal da Barbie para lembrar mães,
educadoras e psicólogas que somos
responsáveis pela construção da
subjetividade de nossas meninas.
MULHERES NA POLÍTICA?
"Elas
roubam igual, mentem igual, fingem Igual.
São tão cínicas quanto nossos políticos".
ISTOÉ - O que a sra.
pensa das brasileiras na política?
Mary - Elas roubam
igual, gastam! cartão corporativo igual,
mentem igual, fingem igual. Enfim, são tão
cínicas quanto nossos políticos. Mensalões,
mensalinhos, dossiês de todo tipo,
falcatruas de todos os tamanhos, já elas
estão em todos!
ISTOÉ - Temos duas
candidatas à Presidência. A Sra. acredita
que, sei eleitas, ajudarão na melhoria das
questões relativas à mulher no Brasil?
Mary - Pois é,
este ano teremos Marina Silva e Dilma
Rousseff. Seria a realização do sonho das
feministas dos anos 70 e 80. Porém, passados
30 anos, Brasília se transformou num imenso
esgoto. Por isso, se uma delas for eleita,
saberemos menos sobre
"o que é ter uma mulher na Presidência"
e mais sobre "como se
fazem presidentes": com aparelhamento
e uso da máquina do Estado, acordos e
propinas.
ISTOÉ - Pesquisa
Datafolha divulgada no dia 28 de fevereiro
apontou que a ministra Dilma é mais aceita
pelos homens (32%) do que pelas mulheres
(24%). Qual sua avaliação?
Mary - Estamos
vivendo um ciclo virtuoso para a economia
brasileira. Milhares saíram da pobreza, a
classe média se robusteceu, o comércio está
aquecido e o consumo de bens e serviços
cresce. Sabe-se que esse processo teve
início no governo FHC. Para desespero dos
radicais, o governo Lula persistiu numa
agenda liberal de sucesso. Os eleitores do
sexo masculino não estarão votando numa
mulher, numa feminista ou numa plataforma
em que os valores femininos estejam em alta,
mas na permanência de um programa econômico.
Neste jogo, ser ou não ser Dilma dá no
mesmo. No Brasil, o voto não tem razões
ideológicas, mas práticas.
"A primeira-dama (Marisa Letícia), hábil
em fazer malas e sorrir, limita-se a
guardar as portas do presidente, sem
estimular nenhum exemplo”
ISTOÉ - Ou seja, o
sexo do candidato não faz a menor diferença?
Mary - O governo
criou um ministério das mulheres (a
Secretaria Especial de Políticas para as
Mulheres) que não disse a que veio. A
primeira-dama (Marisa Letícia), hábil em
fazer malas e sorrir para o marido e para as
câmaras, se limita a guardar as portas do
escritório do presidente, sem estimular
nenhum exemplo. O papel de primeira-dama é
mais importante do que parece. É bom lembrar
que, embora elas não tenham status
particular, representam um país. Daí poderem
desenvolver um papel à altura de seus
projetos pessoais e sua personalidade. A
francesa Danielle Mitterrand, que apoiou
movimentos de esquerda em todo o mundo e
nunca escondeu suas opiniões políticas, ou
Hillary Clinton, pioneira em ter uma sala na
Casa Branca, comportando-se como embaixatriz
dos EUA, são exemplos de mulheres que foram
além da "cara de
paisagem".
ISTOÉ - Por que as
políticas brasileiras não têm agenda voltada
para as mulheres?
Mary - Acho que
tem a ver com a falta de educação da mulher
brasileira de gerações atrás e isso se
reflete até hoje. Tem um pouco a ver com o
fato de o feminismo também não ter pego no
Brasil.
ISTOÉ - Por que o
feminismo não pegou no Brasil?
Mary - Apesar das
conquistas na vida pública e privada, as
mulheres continuam marcadas por formas
arcaicas de pensar. E é em casa que elas
alimentam o machismo, quando as mães
protegem os filhos que agridem mulheres e
não os deixam lavar a louça ou arrumar o
quarto. Há mulheres, ainda, que cultivam o
mito da virilidade. Gostam de se mostrar
frágeis e serem chamadas de chuchuzinho ou
gostosona, tudo o que seja convite a comer.
Há uma desvalorização grosseira das
conquistas das mulheres, por elas mesmas.
Esse comportamento contribui para um grande
fosso entre os sexos, mostrando que o
machismo está enraizado. E que é
provavelmente em casa que jovens como os
alunos da Uniban aprenderam a
"jogar a primeira
pedra" (na aluna Geisy Arruda).
ISTOÉ - O que nos
torna tão desconectadas?
Mary - As mulheres
brasileiras estão adormecidas. Falta-lhes
uma agenda que as arranque da apatia. O
problema é que a vida está cada vez mais
difícil. Trabalha-se muito, ganha-se pouco,
peleja-se contra os cabelos brancos e as
rugas, enfrentam-se problemas com filhos ou
com netos. Esgrima-se contra a solidão, a
depressão, as dores físicas e espirituais. A
guerreira de outrora hoje vive uma luta
miúda e cansativa: a da sobre-vivência. Vai
longe o tempo em que as mulheres desciam às
ruas. Hoje, chega a doer imaginar que a
maior parte de nós passa o tempo lutando
contra a balança, nas academias.
ISTOÉ - Há saída para
a condição da mulher de hoje?
Mary - Em países
onde tais questões foram discutidas, a
resposta veio como proposta para o século
XXI: uma nova ética para a mulher, baseada
em valores absolutamente femininos. De Mary
Wollstonecraft, no século XVIII, a Simone de
Beauvoir, nos anos 50, o objetivo do
feminismo foi provar que as mulheres são
como homens e devem se beneficiar de
direitos iguais. Todavia, no final deste
milênio, inúmeras vozes se levantaram para
denunciar o conteúdo abstrato e falso
dessas idéias, que nunca levaram em conta as
diferenças concretas entre os sexos. Para
lutar contra a subordinação feminina, essa
nova ética considera que não se devem adotar
os valores masculinos para se parecer com os
homens. Mas que, ao contrário, deve-se
repensar e valorizar os interesses e as
virtudes feminina s. Equilibrar o público e
o privado, a liberdade individual, controlar
o hedonismo e os desejos, contornar o vazio
da pós-modernidade, evitar o cinismo e a
ironia diante da vida política. Enfim, as
mulheres têm uma agenda complexa. Mas, se
não for cumprida, seguiremos apenas
modernas. Sem, de fato, entrar na
modernidade.
ISTOÉ - O que as
mulheres do século XXI devem almejar?
Mary - O de
sempre: a felicidade. Só com educação e
consciência seremos capazes de nos
compreender e de definir nossa identidade.
ISTOÉ - Neste 8 de
março, há motivos para festejar?
Mary Del Priore - Não
tenho nenhuma vontade. O diagnóstico das
revoluções femininas do século XX é ambíguo.
Ele aponta para conquistas, mas também para
armadilhas. No campo da aparência, da
sexualidade, do trabalho e da família houve
benefícios, mas também frustrações. A
tirania da perfeição física empurrou a
mulher não para a busca de uma identidade,
mas de uma identificação. Ela precisa se
identificar com o que vê na mídia. A
revolução sexual eclipsou-se diante dos
riscos da Aids. A profissionalização, se
trouxe independência, também acarretou
stress, fadiga e exaustão. A desestruturação
familiar onerou os dependentes mais
indefesos, os filhos.
Fonte:
Revista Istoé - 10
março 2010
Postado por Izabel
Cristina da Fonseca, em 9 de março de
2010 - (0088)