Além do amor
“Não sou do tipo que se contenta em
amar e viver embaixo da ponte.” (Afirmação popular)
Certa vez ouvi uma pessoa comentar, de forma irônica,
que somos mais cuidadosos para escolher um carro do que para escolher um cônjuge
e que, freqüentemente, ficamos mais satisfeitos com aquele do que com este. Este
artigo apresenta os principais cuidados que devem ser tomados para evitar os
perigos que podem estar presentes na hora de escolher um parceiro amoroso.
Alguns destes perigos estão ocultos e precisam ser descobertos. Outros estão à
vista, mas são subestimados pela ótica da paixão.
Amor recíproco é um bom
começo
Você adorou o parceiro logo nos primeiros contatos
e foi correspondida?
Parabéns! Esta química interpessoal é realmente
valiosa e não acontece a todo o momento. No entanto, essa química deve ser
considerada apenas o preenchimento de um primeiro requisito para a criação de um
relacionamento. Para desenvolver um relacionamento duradouro e de boa qualidade,
outros fatores ainda terão que ser considerados. Ninguém vive só de amor. Por
exemplo, esse tipo de relacionamento também exige o desenvolvimento de uma
parceria econômica e social para que o casal tenha uma vida digna e
satisfatória.
Algumas pessoas agem como se acreditassem que o amor só nasce quando o parceiro
é bom e confiável, e que os obstáculos para o relacionamento, caso surjam, podem
ser superados pela força desse sentimento. Por acreditar nisso, elas deixam de
examinar outros fatores que geralmente afetam profundamente a satisfação e a
estabilidade futura do relacionamento conjugal.
Por que o amor inicial não garante o sucesso do
relacionamento?
Existem dois motivos para o amor inicial não ser uma
garantia da satisfação após o casamento. Vamos examiná-los:
1. O amor inicial pode
terminar
O amor tem mais chance de terminar quando:
- Foi baseado na idealização do parceiro -
Quando este foi ficando mais conhecido, a idealização foi se desfazendo e suas
características reais decepcionaram o apaixonado e liquidaram a paixão.
- Os requisitos do amante para manter o amor mudaram com a passagem do tempo,
mas o amado não evoluiu na mesma direção - Por exemplo, aquele amor que você
tinha desde os dezoito anos terminou quando você chegou aos quarenta anos porque
o parceiro não adquiriu aquelas características que você admira agora em um
homem maduro.
- Acontece uma outra pessoa - Segundo Konrad Lorenz, famoso etólogo
alemão, “o ótimo é inimigo do bom”: mesmo quem está apaixonado por uma pessoa
pode se apaixonar por outra que ele ache mais fascinante que a primeira.
- Há uma deterioração das condições que geraram e que mantinham o amor -
Por exemplo, depois de certo tempo, o parceiro foi deixando de apresentar aquela
dedicação a você que logo no início do relacionamento despertaram o seu amor.
Segundo um estudioso desta área, o amor não sobrevive sem cuidados. Manter o
amor é como andar de monociclo: se parar, cai.
2. Algumas das condições que
levam ao nascimento do amor são diferentes daquelas que produzem a satisfação
durante o relacionamento
Um exemplo ajuda a entender facilmente esta afirmação:
um amor pode ter nascido porque o parceiro era charmoso, inteligente e
atencioso. Além disso, as circunstâncias presentes naquela época também
contribuíram para o nascimento deste sentimento: o casal só compartilhava os
bons momentos e as situações agradáveis − só se encontravam para passear, ir a
restaurantes e para dormirem juntos. Posteriormente, quando o casal foi morar
junto e os filhos nasceram, o marido não cooperava com as tarefas domésticas e
passou a mostrar uma boa dose de irresponsabilidade para administrar o dinheiro.
Estas duas novas facetas do parceiro, que não estavam presentes na época do
namoro, passaram a gerar insatisfações na companheira, o que acabou corroendo o
amor que ela tinha por ele.
Principais problemas que podem surgir em um
relacionamento amoroso
Existem inúmeros atributos pessoais (por exemplo,
honestidade, afetuosidade, responsabilidade) e situações pessoais (por exemplo,
a situação econômica e a social) que podem ser fontes de satisfação ou de
problemas em um relacionamento amoroso. Aqui vamos apresentar alguns dos
problemas mais importantes que afetam este tipo de relacionamento.
Agressividade e desrespeito
A história de Mariana, a seguir, mostra como ela
poderia ter evitado o comprometimento com um parceiro agressivo caso tivesse
conversado com as pessoas que o conheciam.
Quando Mariana chegou ao consultório, ela estava com o
rosto bastante deformado. Contou que seu companheiro era charmoso, carinhoso e
gentil quando o conheceu. O único problema que ele apresentava naquela época era
certo exagero na bebida. Eles se apaixonaram rapidamente e, alguns meses depois,
já estavam morando juntos. O sonho durou pouco. Logo ele começou a sair com os
amigos depois do trabalho e freqüentemente voltava bêbado para casa. No dia em
que ela reclamou disso, os dois discutiram e ele começou a agredi-la
fisicamente, com muita violência. Em seguida, colocou-a para fora da casa que
tinham alugado. Este fato deu margem a muitos comentários por parte das pessoas
que o conheciam e logo ela descobriu que não era a primeira vez que ele se
portava de forma agressiva com as companheiras: ele já havia agredido outras
namoradas e a ex-esposa. Infelizmente ela só tomou conhecimento desta informação
tarde demais, quando também já tinha se tornado uma vítima.
Existem dois tipos de agressividade: a física e a
psicológica. A agressividade física é dirigida ao corpo do parceiro. Este tipo
de agressividade pode ser facilmente identificado e foi ilustrado na história de
Mariana A agressividade psicológica é aquela dirigida ao caráter, à reputação e
à auto-estima do parceiro, e pode ser mais difícil de identificar. Ela acontece,
por exemplo, quando o parceiro faz afirmações do tipo: “Você não presta”, “Você
é desonesto”, “Você é burro”. Ambos os tipos de agressividade não devem ser
tolerados. O autoritarismo também pode ser considerado uma forma de agressão. A
pessoa autoritária tenta anular e subjugar o parceiro e impor as suas decisões.
Não compartilhamento de
tarefas caseiras
Há pouco tempo atrás havia uma diferença nítida nos
papéis que a sociedade aprovava para cada um dos cônjuges: o homem deveria ser a
“cabeça do casal” e o “provedor”, e a mulher, a “mãe dedicada” e a “rainha do
lar”. Atualmente, embora algumas pessoas ainda valorizem esta divisão de papéis,
muitas outras preferem e necessitam de um maior grau de igualdade entre os
cônjuges. Recentemente muitas mulheres passaram a trabalhar fora de casa e, por
isso, a divisão das tarefas domésticas com o parceiro tornou-se uma necessidade.
Quando o companheiro não assume a sua parte nestas tarefas, estas mulheres ficam
sobrecarregadas: além de trabalharem fora, elas ainda têm que se encarregar da
casa. Ou seja, acabam desenvolvendo a famosa “dupla jornada”. Por este motivo, a
contribuição dos homens neste setor está sendo cada vez mais valorizada. Uma
pesquisa americana verificou que um dos fatores que mais contribuíam para a
satisfação das mulheres no casamento era ter um companheiro que dividia as
tarefas caseiras e que assumia parte dos encargos relacionados com a educação
dos filhos.
Falta de manifestações
afetivas
Todos nós temos alguma expectativa em relação ao tipo
e à intensidade com que o romantismo deve estar presente em um relacionamento
amoroso. Estas expectativas variam muito. Algumas pessoas acham imprescindível
este tipo de manifestação. Outras ficam desconfortáveis quando há muitas
manifestações deste tipo. Por exemplo, algumas pessoas esperam que o parceiro
sempre lembre as datas significativas para o casal, faça declarações de amor,
goste de andar de mãos dadas e dê muitos beijos. Outras pessoas esperam que as
manifestações românticas sejam bem mais sutis e raras.
Dificuldades sexuais
A sexualidade é outra área que pode ser uma fonte
importante de satisfações ou de problemas para o casal. É muito importante
encontrar um parceiro que atenda as expectativas quanto à freqüência, duração e
conteúdo das práticas sexuais. Desajustes nesta área, além de produzirem a
insatisfação sexual, também possuem outros significados. Por exemplo, um “baixo”
interesse sexual por parte do parceiro pode ser encarado como um indício de
desamor, falta de atração ou de traição.
Incompatibilidade com a
estrutura familiar do parceiro
Uma união amorosa além de envolver diretamente o
casal, também envolve outras pessoas, principalmente os parentes mais próximos
de ambos os lados. O convívio com os parentes tem um papel muito importante na
vida do casal, principalmente quando todos moram na mesma casa, são dependentes
ou simplesmente são importantes para qualquer membro do casal. Exemplos de
parentes que podem afetar significativamente a vida do casal: filhos de outros
casamentos, ex-cônjuges que ainda mantenham relações importantes e outros
parentes que se relacionam intensamente com cada um dos cônjuges.
No Brasil, cerca de 90% dos filhos ficam com a mãe quando acontece uma
separação. Morar com o filho implica em uma grande dedicação de tempo e esforços
como, por exemplo, proporcionar companhia, levá-lo à escola, cuidar da sua
alimentação e da sua educação. As mães separadas variam muito no quanto e na
forma como desempenham estas incumbências. Algumas exageram e deixam pouco tempo
para o parceiro e para o trabalho, o que não é bom. Negligenciá-las também é um
péssimo sinal: “Se faz isso com o próprio filho, que dirá comigo”, afirmou um
conhecido meu que desistiu de uma mãe negligente. É necessário saber dosar a
dedicação a estas diferentes áreas.
Quanto à convivência com os parentes do cônjuge, a disposição e a
disponibilidade variam muito. Algumas pessoas apenas os toleram e consideram
este convívio como uma espécie de provação, como atestam as inúmeras piadas
sobre a “sogra”. Outras pessoas adoram este convívio. Por exemplo, tive um
paciente que estava se separando e o que o deixava mais triste era a perspectiva
de diminuição do convívio com o sogro, com quem ele tinha um ótimo
relacionamento.
Má administração dos recursos
econômicos
A importância dos recursos econômicos para a vida do
casal é do conhecimento de todos. A capacidade para gerar e administrar estes
recursos tanto pode ser fonte de satisfação como de tensão para o casal. Os
principais problemas ocorrem quando um dos membros do casal não está satisfeito
com a forma com que o outro lida com dinheiro, tanto para ganhá-lo como para
gastá-lo ou poupá-lo. É comum que a mulher, mais do que o homem, mostre
insatisfação com a capacidade e os esforços do cônjuge para ganhar dinheiro. Por
outro lado, é mais comum que os homens reclamem da forma com que as mulheres
gastam dinheiro do que vice-versa. A insatisfação nesta área afeta quase todas
as outras áreas da vida pessoal e conjugal como, por exemplo, a auto-estima e a
sexualidade.
Erros nas avaliações das incompatibilidades
Existem vários motivos pelos quais uma pessoa pode se
envolver com um parceiro cujas incompatibilidades estão além do seu limite de
tolerância. Os principais destes motivos são os seguintes:
- O parceiro escondeu seus problemas. Um
parceiro pode ocultar suas dificuldades até que ele sinta confiança para
expressá-las ou até que sejam descobertas.
- Os problemas não estão ativados. Certas situações ainda não se
mostraram porque as condições que as provocam ainda não estão presentes. Por
exemplo, alguns problemas só aparecerão quando os parceiros forem morar juntos
ou quando nascerem os filhos.
- Os problemas são subestimados. Muitas vezes a dificuldade é visível,
mas a sua importância é subestimada ou as chances de corrigi-la é superestimada.
Este tipo de distorção acontece, por exemplo, quando um parceiro se mostra por
demais otimista para lidar com vícios graves, filhos de outros casamentos e
desregramentos para lidar com dinheiro do outro parceiro.
Como identificar possíveis problemas
As principais medidas que podem ser tomadas para
identificar possíveis problemas são as seguintes.
- Conhecer o parceiro em diversas situações -
Quanto mais situações semelhantes àquelas que serão encontradas durante o
casamento forem experimentadas antes de este tipo de compromisso ser assumido,
mais chance de conhecer o parceiro. É perigoso conhecer o parceiro só nos fins
de semana, só nos momentos de lazer e em alguns tipos de situações sociais.
- Conversar com o parceiro sobre o futuro - Procurar saber o que o
parceiro pensa e espera sobre os temas que são importantes para você: filhos,
compartilhamento de tarefas caseiras, aspirações econômicas etc.
- Conversar com outras pessoas sobre o parceiro - Aqueles que conhecem o
parceiro podem fornecer informações preciosas sobre ele.
- Usar outras fontes de informações disponíveis sobre o parceiro -
Atualmente é fácil obter informações sobre quase todo mundo. Por exemplo, é
possível obter muitas informações sobre uma pessoa por meio da placa do seu
carro, do número do seu telefone ou através de um site de busca.
Faça a sua própria lista de características que você
não suporta em um parceiro ou na sua situação. Verifique se aquele parceiro
atraente que você está conhecendo possui alguma delas antes de assumir algum
compromisso mais sério. No entanto, lembre-se de que ninguém é perfeito. Escolha
bem o seu parceiro e viva feliz!
Ailton Amélio da Silva é doutor em
Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e professor da USP, em São Paulo (SP). É
autor de vários estudos científicos sobre relacionamentos amorosos e dos
livros "O Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor" e o mais recente
"Relacionamento Amoroso: Como Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".
Fonte: Provedor
BOL, por Ailton Amélio da Silva
Postado por Izabel
Cristina da Fonseca, dia 24 de junho de 2010 (13.486)