A Relação entre Paixão
e Criatividade
Essas duas forças intensas, capazes de
romper as barreiras da razão, muitas vezes parecem caminhar juntas; o
resultado dessa associação são obras de arte, música e literatura de
inestimável valor não só para artistas e suas musas, mas para toda a
humanidade, por Erane Paladino.
“Pois toda essa beleza que te veste
vem do meu coração que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste.”
Soneto XXII – Shakespeare, 1609
“Se entornaste a nossa sorte pelo chão se na bagunça do
seu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu.”
Eu te amo – Chico Buarque e Tom Jobim, 1980
Quantas poesias, contos e romances têm falado de amor e de dor ao longo dos
tempos? Encontros ardentes e avassaladores e paixões impossíveis, permeiam o
imaginário de homens e mulheres e afetam pessoas de diferentes classes sociais,
em variados contextos históricos e culturais. Parece haver um paradoxo entre
forças intensas capazes de romper as barreiras da razão para jogar no infinito
um oceano desordenado de sentimentos que, ao mesmo tempo, inundam a alma de
amor... e medo.
Quem nunca se viu, pelo menos uma vez, inesperadamente apaixonado? A condição
pode parecer única àquele que a vive, mas as referências a esse estado aparecem
de inúmeras formas, representadas por diferentes povos. Numa dimensão
sociológica, podem-se discutir os limites entre movimentos históricos e
culturais e/ou crenças como elementos propulsores de processos psíquicos
inerentes a essa condição humana de “apaixonamento”.
Ao lembrar os referenciais existentes desde a Grécia Antiga,
o sentido do amor vem associado a algo bom, belo e verdadeiro. Em seu livro Sem
fraude nem favor (1998), o psicanalista Jurandir Freire Costa refere-se a O
banquete, de Platão e define o texto como representante do amor/sentimento
único, inconfundível, universal e intrínseco à natureza do ser humano; um
impulso dirigido a um outro, homem ou mulher, do sexo oposto ou do mesmo sexo,
“um composto afetivo feito de desejo”. Na narrativa sobre o tema, Platão
cria um encontro entre amigos num banquete onde o anfitrião, Agaton, chama a
todos para um debate. Em seu discurso, Aristófanes apresenta seu conceito de
amor: “...Porventura é isso que desejais, ficardes no
mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite e nem de
dia vos separeis? Pois se é isso que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos
numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes,
como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no
Hades, em vez de dois serem um só, mortos numa morte comum.”
A ideia de falta e busca da completude presentes neste texto, escrito nos idos
de 360 a.C., remete aos princípios do amor romântico. Tristão e Isolda, lenda
celta com alguns escritos que datam do século XI, assim como Romeu e Julieta, de
Shakespeare (século XVI), também seriam exemplos das histórias do amor
impossível e arrebatador, que para ser eterno conduz ao desespero e à morte.
Mas, de qual amor falamos? Discutir esta ideia traz controvérsias. Na visão do
filósofo André Comte Sponville, apresentada em Pequeno tratado das grandes
virtudes (1999), há três manifestações: Philia, Ágape e Eros. De forma
sintética, podemos definir Philia como o amor associado à amizade, ao
companheirismo e reciprocidade, enquanto Ágape traz a ideia de benevolência e
caridade de forma humanitária e desinteressada. Por esta ótica, a paixão se
instala onde surge Eros, um amor a serviço deste deus ciumento e possessivo. O
tormento e o prazer vêm juntos, pois este desejo, às vezes incontrolável, brota
da falta.
Na origem da palavra Pathos, no grego, contempla-se a ideia de sofrimento,
paixão e catástrofe. O filósofo francês René Descartes (1596-1650) agrega um
cunho singular ao conceito, articulando-o ao contato com o novo e associando-o
ao padecer e ao agir. Diante da surpresa, somos impelidos a alguma reação que
nos desacomoda. A vida, assim como a paixão, inevitavelmente pedem movimento e
imperfeição. Se o que for passional sugere passividade, vê-se nessa manifestação
amorosa o padecimento e algum tipo de subserviência a sentimentos intensos e
também angustiantes. Afinal, o que seria de Tristão e Isolda se não houvesse uma
espada a separá-los? Ou de Romeu e Julieta se não existisse a forte interdição
entre as famílias? É fascinante observar (e sentir) no amor/Eros uma força
inconfundível de prazer num encontro amoroso aparentemente único, carregado de
momentos de plenitude, porém sempre acompanhados de forte angústia.
TEXTURA DA ILUSÃO
Quem é o objeto da paixão? Talvez aquele que traga a
esperança do resgate de um elo perdido. A psicanalista Melanie Klein, inspirada
em Freud, diz que o bebê, desde o seu nascimento, sofre uma angústia de morte
diante de sensações como dor, fome e frio. Sua fragilidade física e biológica o
leva ao desamparo emocional. O encontro com o prazer de ser acalentado e cuidado
gera uma sensação de bem-estar vivida como plena. O mundo para um bebê seria
traduzido por Klein em termos absolutos: a gratificação gera sensações
prazerosas totalmente boas, assim como a frustração leva a sensações de dor,
ameaça e sofrimento. “Bom e mau” representariam o
maniqueísmo do universo psíquico do bebê em seus primeiros meses de vida.
A paixão faz reviver instabilidades deste vínculo frágil e primitivo de
dependência e apego. O escolhido, objeto da paixão, geralmente, é alguém que
representa a esperança de alcançar o objeto bom idealizado. Muitas vezes, a
pessoa pela qual nos apaixonamos tem atributos sutis, capazes de ativar e trazer
para o presente experiências afetivas de modelos da primeira infância. Detalhes
como o tom de voz, a forma de olhar ou a textura da pele, por exemplo, podem ser
mais importantes como elementos catalisadores da paixão do que outros atributos
aparentemente bastante significativos. A imagem e as expectativas valem mais.
Daí sua associação com a ilusão. Sensações de entorpecimento, carregadas de
fantasias que parecem preencher por completo os enamorados, os levam a perder o
apetite e o sono e a diminuir sua capacidade de concentração nas divagações
quase surreais.
MEMÓRIA DA DOR
Diante da solidão e da incompletude inevitáveis da condição
humana, surge a paixão com a fantasia e a promessa de uma vida plenamente feliz,
numa tentativa emocional de retorno a algum estágio anterior que negue o
desamparo, o medo e os limites impostos pela vida. O paradoxo, porém, está na
força que acompanha o desejo – já presente nas palavras de Platão – de um
encontro perfeito, onde duas metades se unem e se fundem – livrando-nos da dor.
Mas só existe o desejo quando há a constatação da falta.
A paixão denuncia, tanto no adolescente quanto no adulto, a
expectativa de uma vida sem dor, separação ou solidão. Este ideal de amor total
emerge do vazio e do desamparo que ainda pulsa, grita e traz a memória de dor.
Há nos primórdios do desenvolvimento uma lembrança do vazio, fruto da sempre
dolorida separação mãe/bebê.
E como a vida surpreende, a depender das condições, é possível encontrar
possibilidades, criar-se. Segundo o psicanalista Donald Winnicott, há um espaço
potencial, uma espécie de área infinita de separação: o bebê, a criança, o jovem
ou o adulto podem preenchê-lo criativamente com o brincar que, com o tempo,
transforma-se na herança cultural. Pode-se pensar nas dores da separação como
bases psíquicas para a expressão artística e para o trabalho criativo como meio
de reparar e atribuir outro significado à dor. As telas de Frida Kahlo, por
exemplo, retratam explicitamente seu sofrimento físico e suas perdas afetivas,
assim como as obras de Pablo Picasso ou Camille Claudel expõem as angústias de
amores difíceis.
Apaixonados incansáveis são os poetas, os pintores, os escritores, os músicos,
ou mesmo os médicos, professores, psicanalistas... Em comum têm o fato de
construírem um universo a partir de um mundo interior muitas vezes dolorido. De
alguma forma, deve-se a eles toda a gratidão por terem a generosidade de expor
ao mundo suas almas sofridas, num movimento criativo de reavaliação que acaba
por tocar no âmago de cada um de nós, construir novos paradigmas, traçar sempre
um novo olhar para as infinitas e, por vezes, impensáveis possibilidades.
Essas duas forças intensas, capazes de romper as barreiras da
razão, muitas vezes parecem caminhar juntas; o resultado dessa associação são
obras de arte, música e literatura de inestimável valor não só para artistas e
suas musas, mas para toda a humanidade por Erane Paladino.
PARA CONHECER MAIS...
-
Pequeno tratado das grandes
virtudes. A. Comte Sponville. Martins
Fontes,1999
-
Sem fraude nem favor.
Jurandir Freire Costa. Rocco, 1998.
-
O Brincar e a Realidade.
D. W. Winnocott. Imago, 1975.
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Erane Paladino é psicóloga clínica, coordenadora e
professora do Departamento de Psicodinâmica do Instituto Sedes
Sapientiae, autora do livro O adolescente e o conflito de gerações na
sociedade contemporânea (Casa do Psicólogo) |
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Fonte:
Revista Mente e Cérebro
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 8 de março de
2010 (11.472)